Dicas para retomar treinos na rua com segurança: especialistas orientam para não se correr riscos desnecessários

Por Silva Herrera – Estadão

Como a Covid-19 é uma doença nova, as pesquisas ainda estão em curso e há muito mais teorias do que certezas. Como disse o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Souza, “o enfrentamento da pandemia é como uma maratona e acabamos de finalizar apenas o km 5”. No entanto, várias prefeituras brasileiras estão afrouxando o isolamento social e alguns corredores já estão sendo vistos por aí, treinado nas ruas e parques. Eles não estão cometendo nenhum crime, e se exercitar nesse momento é benéfico. Mas será que eles estão se arriscando? Quais cuidados devem ser tomados?

Treinar em local aberto ou fechado?

Os corredores amadores representam um universo, segundo as estimativas mais recentes, de 11 milhões de brasileiros, 5% da população. Se pegarmos os caminhantes frequentes esse número pode dobrar. Mas como retomar os treinos com segurança? Veja bem, em nenhum momento a corrida de rua foi proibida no Brasil, como na Espanha, ou teve horários específicos de treinos ao ar livre por faixas etárias, como na Irlanda. Aqui, a máxima sua cabeça sua sentença é o que está valendo. Por exemplo, em São Paulo os parques estão fechados, mas os shoppings vão abrir, e a lei obriga o uso de máscara nas ruas. Ou seja, você pode treinar na rua de máscaras, sem aglomeração e fora dos parques – que continuam fechados. Mas é seguro? Segundo dr Eduardo Rauen, só se na sua cidade há menos de cem casos positivos de contaminação. Clique aqui para ler a entrevista. Mas a resposta é complexa e há outros dados a serem observados. A Sociedade Brasileira de Medicina Esportiva reforça a necessidade do uso de máscaras, nas práticas ao ar livre, e descarta que a mesma seja nociva. “Em resumo, a máscara pode trazer certo desconforto respiratório e relativa perda de rendimento, mas não coloca em risco a saúde do usuário que deseja praticar exercícios físicos”.

Para ter uma régua mínima, um norte, para os corredores de rua, observei também os dados de Nova York, que foi o epicentro dos Estados Unidos como São Paulo foi do Brasil, e começa a reabertura. E da  matéria “Cinco regras para viver durante a pandemia”, publicada no site do  “The New York Times”,  uma espécie de  manual para encarar o cenário do futuro próximo, com aumento e queda de casos de Covid-19, em vários locais do Planeta. Confira abaixo.

Faça o teste – no exterior, os testes são uma realidade. Mas no Brasil não. E como a maioria dos contaminados é assintomática, e você vai se expor em treinos externos, correndo na rua,  é primordial saber se você está infectado, ou não. Ninguém quer se tornar  um vetor da Covid-19, contaminando os outros por aí sem saber. Sim a pessoa contamina os outros antes de apresentar os sintomas. Só testando você vai ter certeza de que está contaminado e sem sintomas. E todos seus companheiros de assessoria esportiva e treinadores também devem fazer o teste.  Em Nova York e em algumas cidades da Europa e da Ásia é possível checar inclusive o grau de risco de contaminação do local dos treinos e se há aglomeração ou não. Se sua cidade tiver os dados por bairro, vale estudar. No Brasil, só são testados no SUS, por enquanto, os doentes que apresentam todos os sintomas e precisam de cuidados médicos urgentes. Na rede particular é possível realizar três tipos diferentes de testes. Os médicos recomendam fazer o exame de sangue (ELISA), com menor taxa de falso positivo. Os valores são entre 200 e 400 reais. Confira os tipos de teste neste post: “Evitar o abre-e-fecha“. A CBF fez seu guia, são 32 páginas e envolveu o trabalho de 17 médicos, entre ortopedistas, infectologistas e especialistas em bioinformática. O guia pede para os atletas sejam testados sempre, não tomem banho nos vestiários, cortarem as unhas e evitarem sair de casa, entre vários outros itens. Um item curioso chama a atenção, o teste do cafezinho. Como 88% dos infectados perdem o olfato, sugerem que os atletas cheirem o cafezinho, que não sentir o aroma terá que ser testado imediatamente.  Clique aqui para conferir o guia.

Faça a lição de casa – antes de sair de casa lave as mãos, coloque a máscara. Corra sozinho.  No trajeto, mantenha o distanciamento seguro de 2 metros das outras pessoas. No regresso, retire o calçado antes de entrar em casa, e vá direito para o banho.  Encontrou alguém suspeito no caminho, que tossiu ou espirrou perto de você, ou soube que a pessoa ficou doente? Por precaução, faça auto quarentena. E leve em conta todas as recomendações abaixo, antes de recomeçar seus treinos nas ruas, praias e parques.

Verifique a taxa do aumento do número de infectados  – os especialistas recomendam checar essa taxa da sua cidade, estado e país, como ela evoluiu nos últimos 15 dias. Se essa taxa for de até  5% é sinal de que estão testando um número significativo de pessoas, e há poucas chances de você cruzar com o vírus por aí. Se a taxa for menor que 2%, melhor ainda. Se a taxa subir, tome mais cuidados. E se na sua cidade os casos são rastreados,  ótimo. A imunologista Erin Bromage, professora de Biologia da Universidade de Massachusetts, explica que esses índices indicam que há testes suficientes em andamento para que você possa se sentir confiante que suas interações em sociedade terão um risco menor. Porém, a taxa baixa não é um atestado de liberdade. E é bom lembrar que a taxa é dinâmica.

Vamos aos dados. A taxa do Estado de Nova York está em 1,6%. E a do Havaí, 0,35% . E a do o Brasil é a maior taxa entre todos os países: 36,68%. Dados da Universidade Johns Hopkins (https://coronavirus.jhu.edu/testing/testing-positivity). Fui pesquisar a taxa da cidade onde moro, São Paulo, nos boletins da Secretaria Estadual de São Paulo. Não localizei, mas há todos os boletins diários e foi rápido localizar os dados para calcular a taxa. Para isso, use a seguinte fórmula –  diferença entre o valor atual e o anterior, dividido pelo valor anterior, multiplicado por 100%. A capital paulista registrou 32% de aumento entre 25 de maio e 1º de junho, mais 23,8% até 8 de junho. Está caindo, mas estamos longe dos 5%.  A título de comparação, pesquisei a capital fluminense, que já liberou a praia para práticas esportivas. No site da secretaria fluminense só há disponível a informação do dia, encontrei os outros números nos portais de notícias. Fiquei estarrecida. Entre 25 de maio e 1º de junho a taxa estava nas alturas: 106%; e entre 1º e 8 de junho despencou para 26%. Isso pode indicar que aumentaram expressivamente os testes e o isolamento social funcionou, mas o cenário ainda exige cuidados. E como diz o biólogo Átila Iamarino estamos no escuro, sem nenhuma vela, e provavelmente vamos ter uma nova onda de casos por aí por conta dessa reabertura prematura. Confira o vídeo clicando aqui.

Limite o número de encontros –  quando sua cidade chegar a 5% você pode sair para treinar com os membros da sua família, e pode fazer uma bolha de segurança, com mais uma família, ou membros da sua assessoria esportiva. Esse acordo requer um alto nível de confiança entre as pessoas. Sem julgamento, todos têm que jogar limpo, se foram trabalhar, se encontram alguém sem máscara, se fizeram o teste, se participaram de alguma manifestação etc. Antes disso, o mais racional a fazer é treinar sozinho.

Gerencie o tempo de exposição ao vírus – o risco de contaminação é cumulativo. Os especialistas dizem que há pouco risco praticar exercícios físicos ao ar livre, seria comparado a saída semanal para fazer compras. Teste correr uma vez por semana sozinho, ou com no máximo uma pessoa, em locais vazios e ao ar livre, e vá aumentando aos poucos para ir se adaptando à máscara e para gerenciar o tempo de exposição ao vírus. E também para trabalhar o psicológico. Não se sinta culpado. E a qualquer sintoma, pare e faça auto quarentena.  Os especialistas destacam que vamos ter que fazer escolhas. Por exemplo, se for correr de manhã, não poderei visitar meus pais à noite. A dica é gerenciar o tempo de exposição como fazemos com a alimentação. Se exagerou num dia, reduza no outro. E todos os membros da sua família devem fazer o mesmo. O mais perigoso é ir trabalhar, pegar transporte público, passar um tempo em aglomerações (mais de 10 dessoas). O professor de Psicologia da Universidade de Stanford observa que é essencial não correr riscos desnecessários. “Faça trocas que sejam congruentes com suas necessidades e prioridades de saúde mental”, explica. Por exemplo, que visitar um ente querido que está doente, não saia naquele dia para não oferecer riscos a pessoa que irá visitar.

Reduza o tempo das atividades de risco – quanto tempo é necessário para eu pegar Covid-19 de uma pessoa infectada? Ainda não há dados fechados. O cientista Linsey Marr explica que o problema não é o tempo, que dá no mesmo ficar perto dessa pessoa ou ficar longe dela em um mesmo ambiente fechado e mal ventilado para pegar a Covid-19 no ar. Ao ar livre, o risco de se contaminar é bem baixo. Ou seja, o risco de contaminação correndo na rua é bem inferior ao risco de correr na esteira em ambiente fechado, com várias pessoas em volta. O que os cientistas já comprovaram é que conversas rápidas, com uso de máscaras, em ambiente externo, de no máximo 5 minutos oferecem menos riscos, do que conversas mais longas. O que foi comprovado é que uma pessoa infectada expele 200 cargas virais por minuto, e para contaminar alguém é preciso expelir, no mínimo,  1.000 cargas virais. E quando alguém é rastreado, procuram por pessoas que conversaram mais de 15 minutos com o infectado. Ou seja, se for correr com os amigos, use máscaras e evite conversar por mais de 10 minutos com eles. Já em ambientes fechados, como academias o risco é bem maior, já que uma pessoa do outro lado da sala, que seja assintomática, pode acabar contaminando muita gente. Por isso, as academias, missas, festas, restaurantes e escritórios estão ainda vetados ou parcialmente vetados.  A dra Erin Bromage sugere que, antes de você fazer qualquer escolha, leve em conta o volume de ar no espaço que pretende ir. Por exemplo, um pequeno espaço ao ar livre é mais seguro que uma enorme sala de reuniões fechada. Leve em conta também o número de pessoas que estarão nesse evento – quanto menos melhor – e quanto tempo as pessoas terão que ficar juntos, quanto mais rápido melhor. Confira mais orientações da imunologista  no blog dela: https://www.erinbromage.com/post/the-risks-know-them-avoid-them